‘Neste sistema hipercapitalista, as pessoas não fazem nada além de ganhar dinheiro sem fazer nada’



Um dos criadores do Dogecoin (DOGE), Jackson Palmer tornou-se um dos principais detratores das criptomoedas, destilando críticas sarcásticas e contundentes ao sistema que ajudou a criar em uma cruzada para abrir os olhos de pessoas iludidas pelas promessas de dinheiro fácil características de ciclos de alta do mercado, como o do ano passado.

Agora, em uma rara entrevista ao jornal australiano Crickey, Palmer revelou ter se iludido com um possível “fim das criptomoedas” após o fim da exuberância irracional do mercado que levou a capitalização do mercado acima de US$ 3 trilhões e conduziu o DOGE ao grupo das dez criptomoedas mais valiosas da história:

“Infelizmente, eu gostaria que fosse o fim das criptomoedas, mas não é. Mais holisticamente, neste sistema econômico de vigaristas, de hipercapitalismo, de capitalismo rentista, cada vez mais as pessoas não estão fazendo nada além de ganhar dinheiro sem fazer nada. Isso meio que fodeu com todo mundo. As pessoas internalizaram um estranho estado mental: coisas que há cinco ou dez anos as pessoas teriam discernimento de reconhecer como ‘estranhas’, agora estão OK. Agora, mesmo que sejam fraudulentas, as pessoas pensam, ‘eu realmente me importo?'”

Mesmo agora, com seis meses de mercado de baixa, as criptomoedas parecem longe do fim, como ele foi obrigado a reconhecer durante a entrevista:

“Sinceramente, pensei que as coisas – e acho que finalmente isso talvez esteja acontecendo agora – implodiriam um pouco mais rapidamente e as pessoas aprenderiam a lição. Mas cada vez mais, nos últimos seis meses, tenho observado uma perseverança contínua. Você vê essas pessoas grandes com muito dinheiro se envolvendo e isso significa que não está diminuindo.”

Palmer afirma que os ciclos do mercado de criptomoedas baseiam-se na capacidade da indústria de desenvolver novas estratégias para atrair usuários, a quem ele se refere como “otários”. A ideia de que o mercado está passando por um inverno não é correta, segundo ele, pois ainda há grandes quantidades de dinheiro afluindo para a indústria.

Na verdade, diz Palmer, os ditos ciclos de baixa são períodos de tempo necessários para que as pessoas possam se esquecer dos golpes e fraudes que foram responsáveis por impulsionar os ciclos de alta e se sintam dispostas a voltar ao mercado:

“Eles [desenvolvedores] estão esperando por um novo contingente de otários. Isso acontece em ciclos. Você espera um pouco para que a memória coletiva esqueça o tamanho da farsa. Tivemos ICOs [ofertas iniciais de moedas], DAOs [organizações autônomas descentralizadas], agora é NFT [tokens não fungíveis]. Agora, estou vendo as ofertas iniciais de jogos como a última novidade.

“Economia da vigarice”

Palmer cunhou um termo para se referir ao espaço – griftonomics – e também o utilizou para batizar seu podcast, cujo primeiro episódio foi lançado há pouco e é inteiramente focado em críticas às criptomoedas. O neologismo é uma combinação das palavras vigaristas e economia, que em tradução livre poderia ser entendido como “economia da vigarice”.

Segundo ele, o termo não se reduz unicamente ao universo das criptomoedas, mas a um estado geral de letargia moldado por promessas irrealizáveis e fake news, no qual a única coisa que importa é fazer dinheiro. Não importa como.

Palmer se refere ao homem mais rico do mundo e fã número 1 do Dogecoin, o bilionário Elon Musk, como símbolo do que é esta economia baseada em realizações intangíveis ou jamais realizadas:

“Ele é um vigarista, vende uma ideia baseada na esperança de que um dia possa cumprir o que está prometendo, mas não sabe como fazê-lo. Ele é muito bom em fingir que sabe. Isso é muito evidente com a promessa de carros totalmente autônomos da Tesla.”

Ainda segundo Palmer, a proposta de compra do Twitter apresentada pelo milionário não seria mais do que uma estratégia deliberada para destruir a credibilidade da rede social ou então Musk estaria tentando derrubar o valor das ações da empresa para torná-la menos valiosa em termos de mercado. “E acho que é isso que ele está fazendo”, disse Palmer, acrescentando detalhes sobre o que ele acredita ser a estratégia do bilionário:

“Ele está semeando uma enorme quantidade de discórdia e desconfiança na plataforma, provocando atrito e desgaste na equipe de funcionários.”

Jackson Palmer e o Dogecoin

O Dogecoin surgiu como uma grande inovação no então pouco diverso mercado de criptomoedas, embora não fosse exatamente isso que seus criadores tivessem em mente quando o idealizaram. Jackson Palmer era gerente de marketing de produtos da Adobe em 2013, quando ele e o engenheiro de software Billy Markus tiveram a ideia de criar a criptomoeda “mais ridícula possível”.

Com este propósito em mente, os criadores escolheram como símbolo um meme popular da internet: um cão da raça japonesa Shiba Inu e estabeleceram um suprimento total de 100 bilhões de unidades para torná-lo indesejável enquanto ativo financeiro.

Assim, eles imaginaram que estariam evitando que o DOGE se tornasse “coisa séria”. Não satisfeitos, depois, acabaram decidindo que o DOGE deveria ter um estoque ilimitado para promover o uso do token e desencorajar que as pessoas o guardassem.

O Dogecoin foi lançado em 6 de dezembro de 2013 e se tornou instantaneamente um sucesso na então pequena comunidade cripto justamente pela novidade contida em sua proposta. Como normalmente acontece com as criações que se tornam populares, seu destino escapou ao desejo original dos criadores e se tornou algo muito maior e inesperado. 

Antes do fim de 2013, o Dogecoin já valorizara-se em 300%, e em janeiro, por um breve momento, o volume de negociação do DOGE chegou a ultrapassar o do Bitcoin (BTC).

Palmer abandonou o Dogecoin ainda em 2015. E no ano passado, já com o projeto do Griftonomics em mente, utilizou o Twitter para detonar a indústria de criptomoedas, conforme noticiou o Cointelegraph Brasil na ocasião.

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