Especialista analisa o futuro do Ethereum descrito por Vitalik Buterin



Este texto foi escrito por Paulo Boghosian, co-head do TC Cripto especialmente para o Cointelegraph

Vitalik Buterin, fundador do Ethereum, é, sem dúvida nenhuma, um dos principais pensadores do mundo dos criptoativos. Alguns o criticam pelo seu jeito excêntrico, mas esse tipo de criticismo raso não é relevante. Outros, principalmente os bitcoiners, o criticam pelo seu papel demasiadamente centralizador no protocolo do Ethereum.

Essa é uma crítica válida, à medida que buscamos blockchains resistentes à censura e descentralizadas, quer dizer, regidas por consenso, e não por CEOs. Diga-se de passagem, esse foi o motivo pelo qual Satoshi Nakamoto, criador do Bitcoin, preferiu se manter anônimo.

Mesmo assim, é indiscutível a importância de Vitalik para o setor. Suas ideias, planos e visões de como deve evoluir o mercado, e a sociedade como um todo, são valiosos e genuínos; vêm de alguém com o propósito de mudar o mundo, em um segmento com tantos mercenários visando um lucro rápido ou uma massagem no ego.

O Ethereum se aproxima de um de seus momentos mais importantes, o upgrade do seu protocolo, introduzindo soluções que visam resolver um dos problemas mais críticos das blockchains, o da escalabilidade, e uma alteração no seu mecanismo de consenso, substituindo a prova de trabalho pela prova de participação.

É um evento que todo o mercado está observando de perto, um projeto ambicioso e de alta complexidade, que pode selar o futuro do Ethereum dependendo do seu resultado. Mas Vitalik parece tranquilo. Ele tem feito diversas participações em conferências, podcasts, como o do Bankless, e escrito ativamente para o seu blog.

Nos últimos seis meses, ele fez três importantes postagens, dentre as quais duas grandes postagens se destacaram.

Na primeira delas, chamada de “Endgame”, Vitalik descreve os rumos que ele enxerga para o Ethereum e o papel de blockchains na sociedade; na segunda, sobre o white paper a respeito de Soul Bounding Tokens (SBT), onde Vitalik introduz um novo pedaço de infraestrutura para blockchains, um formato de NFTs que terão papel crucial nas relações nesse universo.

Vale a pena aprofundar em cada uma dessas ideias para compreender o futuro das blockchains, ao menos aquelas que se propõem a resolver outros problemas que não o do dinheiro.

O futuro do Ethereum descrito por Vitalik Buterin

Endgame

No artigo “Endgame”, Vitalik discute um roadmap plausível para o Ethereum e como ele vai endereçar o problema da escalabilidade no protocolo.

Antes de entrar no tema, é importante lembrar que todas as blockchains possuem seus problemas de escalabilidade, principalmente aquelas que utilizam contratos inteligentes e, portanto, requerem um espaço maior de blocos (blockspace) e uma necessidade de processar uma quantidade alta de transações por unidade de tempo (throughput), que é o caso de plataformas que rodam uma grande quantidade de aplicações em cima.

Esse é o caso do Ethereum, Solana, Avalanche e algumas outras plataformas de contratos inteligentes. Cada uma delas possui sua maneira de endereçar esses problemas de escalabilidade. São escolhas de design que priorizam entre segurança, descentralização e escalabilidade.

Para quem não está familiarizado com o tema, sugiro a leitura acerca do “Scalability Trilema”, ou trilema da escalabilidade – Blockchain Trilemma: Scaling and Security Issues | Gemini.

Além disso, ressalto também que não acredito que a escalabilidade das blockchains será resolvida da noite para o dia com alguma “bala de prata”. É um problema a ser resolvido com inovação incremental, incorporação de novas tecnologias, hardwares mais eficientes e otimização de recursos.

Parece ser justamente essa a visão de Vitalik, com um roadmap extenso para o Ethereum, incorporando inovações como Verkle Trees, sharding, provas de zero trabalho (ZK Snarks – Zero Knowledge Succint Non Interactive Argument of Knowledge) e data availability sampling.

Vou explicá-las abaixo de uma forma extremamente simplista, pois o objetivo deste artigo não é técnico.

Verkle Trees são semelhantes às raízes de merkle, propostas por Ralph Merkle em 1979 e já utilizadas no Bitcoin, que são basicamente uma construção criptográfica que organiza e resume as informações em formato de árvores de nós (nodes) e, com isso, permite, de forma mais eficiente e segura, fazer a verificação de grandes estruturas de dados.

Verkle Trees foram propostos recentemente, em 2018 por John Kuszmaul, e são uma inovação incremental que permitem essa verificação de forma ainda mais eficiente, pois requerem provas de 6 a 8 vezes menores.

ZK Snarks, a base do Z-Cash, são outro grande avanço da criptografia moderna. São construções de provas que permitem que alguma entidade comprove a posse de uma determinada informação, sem revelar qual e sem que haja interação entre quem detém a prova e quem está fazendo a verificação.

É uma tecnologia criptográfica adicional que torna mais eficiente a verificação dentro de uma blockchain e que pode, inclusive, ser potencializada se usada em conjunto com Verkle Trees.

Sharding é outra tecnologia moderna que permite compartimentalizar informações. Basicamente, ao invés de todos os participantes da rede lidarem com as mesmas informações, é possível dividir as informações em conjuntos de dados enviados para diferentes grupos de participantes e, com isso, fazer com que haja um processamento paralelo na blockchain.

Data availability sampling consiste em utilizar técnicas probabilísticas de amostragem para garantir que grandes quantidades de dados estejam disponíveis na blockchain.

Esses são alguns exemplos de tecnologias que poderão ser incorporadas ao Ethereum (e às demais blockchains) ao longo do tempo. Vão permitir que a blockchain funcione de forma mais eficiente e possibilitar o desenvolvimento de novas camadas em cima da sua camada base.

São implementações complexas que exigem uma capacidade de desenvolvimento avançada e não há garantia de que sejam incorporadas com sucesso, cada uma com suas vantagens e desvantagens.

Mas, acima de tudo, evidenciam a vantagem competitiva da comunidade de desenvolvedores e pesquisadores do Ethereum em relação a outras plataformas de contratos inteligentes.

Mostram também a fortaleza que é ter uma quantidade de talentos fora da curva trabalhando em cripto para resolver seus principais gargalos e tornar essa tecnologia pronta para adoção em massa, em um futuro não muito distante.

SoulBound Tokens (SBTs)

Em outro post igualmente interessante, Vitalik falou sobre o recém publicado paper dos Soulbound Tokens, um novo padrão de tokens que será, segundo ele próprio, fundamental na construção de uma sociedade descentralizada e, claro, na web 3.0, uma internet mais aberta, inclusiva, que protege a privacidade dos usuários e permite que indivíduos e comunidades capturem, de forma mais eficiente, o valor que eles criam para a sociedade.

Esse artigo da Andreessen Horowitz mostra de forma bem completa o ethos dessa nova internet.

Soulbound Tokens são um novo tipo de NFTs que são intransferíveis. Ora, se um NFT não pode ser negociado ou transferido para um terceiro, o usuário pode se perguntar: Como rentabilizá-los? Como especular em cima desse novo tipo de token? Para que detê-los?

Essa é, geralmente, a primeira reação. Mas, para uma série de casos de uso, Soulbound Tokens fazem mais sentido do que um NFT convencional. Alguns exemplos são:

  • Diplomas e certificados de universidades;
  • Prova de participação em algum evento;
  • Curriculum Vitae comprovando experiências e passagens por determinadas empresas;
  • Títulos de clubes e afiliações;
  • Direitos de governança em organizações descentralizadas;
  • Gerenciamento de chaves privadas.

Enfim, SBTs fazem sentido em todos os casos em que importa menos o poder econômico de uma determinada pessoa e mais as credenciais e experiências que ela possui. Quando se fala em governança, a importância disso é bem óbvia.

Como diz o ditado, citado inclusive por Vitalik, “aqueles que mais querem governar as pessoas são os menos aptos a fazê-lo”.

Portanto, se queremos uma sociedade descentralizada no futuro, sem que haja poder concentrado nas mãos de uma minoria que possui a maior parte da riqueza, ou na mão de golpistas que se dizem especialistas, SBTs se tornam fundamentais para garantir uma governança meritocrática.

Uma crítica muito comum da tecnologia de NFTs é que ela tem sido utilizada exclusivamente para futilidade e exibicionismo, mas SBTs eliminam também esse aspecto especulativo e fútil da equação e colocam a verdadeira “alma” dos participantes no jogo.

Assim, SBTs serão a ferramenta ideal para governança compartilhada, identidade no meio digital e uma maneira mais adequada de comprovar proveniência e reputação em uma sociedade mais plural.

Conclusão

Cripto é muito mais do que especulação e jogos de soma zero. Quem está ativamente envolvido nesse mercado sabe bem disso, mas, às vezes, o leitor que está de fora pode ser induzido a uma compreensão mais rasa desse setor por declarações falaciosas de “autoridades” do status quo, como a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, que recentemente falou que cripto não vale nada.

Pensadores como Vitalik Buterin são, portanto, fundamentais para propagar o ethos e a visão de boa parte da comunidade cripto e, também, para coordenar a busca de soluções para seus principais gargalos. Acompanhar e entender essa visão é, portanto, na minha opinião, fundamental para se aprofundar e compreender esse mercado.

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