Brasileira é vítima de ‘golpe do amor’ no Tinder e perde R$ 600 mil em criptomoedas



Uma potencial aventura romântica acabou resultando em um prejuízo de R$ 600.000 para uma administradora de empresas de 41 anos, depois que ela confiou as economias de toda uma vida ao suposto par romântico para realização de operações de investimentos em criptomoedas, relata reportagem da Folha de São Paulo, publicada no sábado, 4.

Em seu perfil no Tinder, “Jack” se apresentava como um homem de negócios e investidor londrino, de 33 anos. A polícia suspeita que se trate de um perfil fictício, provavelmente administrado por um brasileiro. Supostamente de passagem pelo Brasil para cuidar de um tio vitimado pela demência, ele e Aline dos Santos se aproximaram através do Tinder, um popular aplicativo de relacionamentos.

Gentil e simpático, em pouco tempo Jack conquistou a confiança de Aline e sentiu-se à vontade para lançar a primeira isca para concretizar o golpe sem que ambos sequer houvessem se encontrado pessoalmente: um comentário corriqueiro sobre o estado do mercado foi a deixa para falar de sua paixão pelo trabalho de investidor de criptomoedas.

Investidora de perfil conservador, com preferência por aplicações de renda fixa, a vítima revelou desconhecer o universo das criptomoedas, mas o entusiasmo de Jack despertou seu interesse. Então, prontamente, o par romântico se mostrou disposto a apresentá-la ao assunto. À distância, pois a suposta doença do tio sempre surgia como empecilho para concretização de um encontro presencial.

A partir de então, passou a enviar à vítima informações a respeito das principais criptomoedas do mercado e algumas estratégias básicas de operação. Jack incentivou-a a fazer um primeiro aporte, de apenas US$ 1.000, como experiência. 

Na ocasião, sugeriu que ela utilizasse a exchange Crypto.com, uma empresa de reputação global que patrocina a principal competição de futebol da América Latina, a Taça Libertadores da América, e tem o ator hollywoodiano Matt Damon como garoto propaganda.

Através da troca de capturas de tela, o golpista guiou Aline passo a passo na realização de seu primeiro investimento em criptomoedas, sem exigir informações como senha ou outros dados pessoais.

O investimento mostrou-se rentável e a vítima estava disposta a realizar novos aportes com uma quantia obtida através da venda de um imóvel. Foi então que teve início a etapa do golpe que resultou em sérios prejuízos para ela.

Jack sugeriu que ela utilizasse uma exchange que cobrava menos taxas e portanto geraria maior retorno aos seus investimentos. Ao mesmo tempo, revelou que estava planejando mudar-se para o Brasil e tinha interesse em se comprometer em um relacionamento sério.

Jack sugeriu que o investimento fosse feito através da BTX Exchange, e a vítima transferiu uma quantia substancial para a suposta conta da empresa sem se preocupar em checar sua idoneidade.

Courtnay Guimarães, um cientista de dados especializado em tecnologia blockchain ouvido pela reportagem da Folha de São Paulo, acredita que provavelmente a BTX Exchange tenha sido criada explicitamente para aplicação de golpes similares ao que vitimou Aline:

“Uma hipótese é que o fraudador tenha criado uma exchange, com regras de negócio próprias, usando vários recursos de código aberto disponíveis no mercado e que isso seja uma quadrilha internacional. As vítimas conseguem depositar seus recursos, mas não conseguem mais tirar seu dinheiro de lá.”

Com a desvalorização do investimento, que havia chegado a US$ 47.000 a partir de um aporte inicial de US$ 89.000 (aproximadamente R$ 425.000 na cotação de hoje), Aline entendeu que deveria resgatá-lo. Foi aí que surgiram as primeiras evidências de que ela poderia ter sido vítima de um golpe, pois não conseguia fazer o resgate através do aplicativo da BTX Exchange. 

Após um período indisponível, Jack reapareceu com a promessa de que os dois finalmente poderiam se encontrar pessoalmente. No entanto, a Covid surgiu como uma nova desculpa para adiar o encotro. Jack havia sido diagnosticado portador do coronavírus ao desembarcar no Brasil e teria que se submeter a um período de quarentena.

Aline então pediu sua ajuda para resgatar os investimentos, mas Jack disse não conseguir ajudá-la e mostrava-se triste por isso, em mais um lance de manipulação emocional.

Após finalmente conseguir entrar em contato com o suposto serviço de atendimento ao cliente da BTX, Aline foi orientada a pagar uma taxa para realização do resgate. Segundo ela, ao todo ela teve despesas de US$ 37.568 em USDT (aproximadamente E$ 180.000) e mesmo assim não conseguiu reaver o dinheiro originalmente investido. Para arcar com esses custos, foi obrigada a contrair dívidas enquanto a relação virtual começou a degringolar.

A essa altura, Aline resolveu compartilhar seu drama com uma amiga. Após analisar o caso etapa por etapa, decidiram que a melhor atitude a ser tomada era procurar a polícia. A vítima registrou boletim de ocorrência na delegacia de crimes cibernéticos, no centro de São Paulo. Ao relatar o seu caso, imediatamente o escrivão afirmou tratar-se de um golpe. Ela poderia abrir um inquérito para que o caso fosse investigado, mas o dinheiro dificilmente seria recuperado, acrescentou.

O delegado Thiago Cirino Chinelatto, da divisão de Crimes Cibernéticos da Polícia Civil de São Paulo revelou à Folha que o golpe do qual Aline foi vítima se enquadra em um padrão comum de estelionato via aplicativos de relacionamentos, que passou a ser identificado pelos investigadores como “golpe do amor”: o par normalmente diz morar fora do Brasil, utiliza uma foto de perfil falsa, que por si só configura crime de falsidade ideológica, e puxa assunto sobre investimentos financeiros.

A experiência levou a administradora de empresas a abandonar o aplicativo de relacionamento para concentrar-se em buscar uma recolocação profissional para conseguir quitar as dívidas que contraiu ao tomar empréstimos para pagar as taxas que permitiram que ela sacasse o dinheiro investido.

Conforme noticiou o Cointelegraph Brasil recentemente, o “Golpista do Tinder” Shimon Hayut, que teve a sua história retratada a partir do relato de vítimas de fraudes financeiras em um documentário da Netflix, afirmou ter feito fortuna investindo em Bitcoin – e não explorando emocionalmente suas vítimas para seu próprio benefício financeiro, como sugere o filme. 

LEIA MAIS



Source link

Share to...