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    O voo dos copilotos: o papel de Alckmin e Braga Netto nas eleições de 2022 – 23/09/2022

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    Se há uma lição que o Brasil já deveria ter aprendido é de que não existe “vice decorativo”. Dos 38 presidentes de nossa história republicana, oito entraram no cargo via Palácio do Jaburu — a residência oficial dos vice-presidentes —, três deles durante o período de redemocratização e dois através de impeachments.

    Até a Constituição de 1988, as eleições para presidente e vice eram paralelas, ou seja, eles não precisavam ser da mesma chapa, nem sequer da mesma vertente ideológica: era possível ter um presidente de esquerda e um vice de direita, por exemplo. Não precisa nem dizer que era receita para confusão”, diz Rafael Mafei, professor da Faculdade de Direito da USP e autor do livro “Como remover um presidente” (Zahar, 2021).

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    Antes da atual Constituição – que, diga-se de passagem, entrou em vigor pelas mãos do vice José Sarney, assumindo a Presidência após a hospitalização e morte de Tancredo Neves, em 1985 -, o poder do vice era ainda maior, ora atuando como presidente do Senado, ora como presidente do Congresso, dependendo da carta vigente. O cargo só esteve extinto entre 1937 e 1945: na Constituição criada por Getúlio Vargas durante o Estado Novo, sumiu a figura do vice.

    Hoje, o vice tem apenas duas funções oficiais: participar do Conselho da República e do Conselho da Defesa Nacional – além, é claro, de substituir o titular em caso de ausência ou abandono do cargo. O assunto é levado tão a sério que o GSI (Gabinete de Segurança Institucional) evita reunir os dois mandatários num mesmo local por precaução contra atentados. Nem seus escritórios ficam próximos: o do presidente está dentro do Palácio do Planalto; o do vice, em um distante prédio anexo.

    15.3.1990 | O presidente Fernando Collor acompanhado do vice-presidente Itamar Franco, chega ao Palácio do Planalto - José Cruz / Agência Brasil - José Cruz / Agência Brasil

    15.3.1990 | O presidente Fernando Collor acompanhado do vice-presidente Itamar Franco

    Imagem: José Cruz / Agência Brasil

    1.1.2011 | Michel Temer (à esq.), com Dilma Rousseff e Lula, na posse da presidente, em cena de 'Democracia em Vertigem' - Orlando Brito/Divulgação - Orlando Brito/Divulgação

    1.1.2011 | Michel Temer (à esq.), com Dilma Rousseff e Lula, na posse da presidente

    Imagem: Orlando Brito/Divulgação

    Tramas epistolares

    Em dezembro de 2015, a carta enviada por Michel Temer (MDB) a Dilma Rousseff (PT) ganhou a internet na forma de memes e piadas. O texto, com frases em latim e recheado de mesóclises, registrava sua insatisfação, ao dizer que perdera “todo protagonismo político” e passara o primeiro mandato (2010 a 2014) como um “vice decorativo”.

    Foi no segundo mandato de Dilma que, graças à articulação política de Temer, Eduardo Cunha (MDB) foi eleito presidente da Câmara dos Deputados — e se tornaria o algoz do impeachment sofrido por ela. Foram nove meses entre o envio da fatídica carta até Temer ser empossado, em 31 de agosto de 2016.

    O vice de Dilma não foi o único a pôr no papel (e na mídia) sua insatisfação. O então vice-presidente Itamar Franco (extinto PRN) vivia às turras com Fernando Collor (extinto PRN) desde a campanha. Itamar, que estava sem partido e em final de mandato, queria disputar uma eleição grandiosa como aquela de 1989 (a primeira em 21 anos de ditadura) e Collor, aproveitar a popularidade do mineiro num grande colégio eleitoral como o de Minas. Eles pertenciam a espectros políticos diferentes: Collor vinha de uma família de políticos alinhada ao regime militar (ligado à Arena), enquanto Itamar nascera politicamente nos berços do PTB (e do PMDB, partido de oposição à ditadura).

    A campanha desgastou tanto a relação que, após eleito, Collor só recebeu Itamar dois dias depois do anúncio de sua vitória. A primeira desavença pública entre ambos se deu em 1991, durante a privatização da siderúrgica Usiminas. Itamar era contra e chegou a dizer: “Não posso criar dificuldades para o presidente, pois sou seu substituto eventual, mas isso me obriga a um autopoliciamento, uma autodisciplina”, registra o livro de Mafei.

    Em 1992, Itamar enviou uma carta raivosa — que também fez chegar à imprensa —, reclamando não ter sido consultado sobre a reforma ministerial promovida em abril daquele ano, a formação do chamado “Ministério dos Notáveis”. No mês seguinte, ele se desfiliaria do PRN, partido do governo, para, em 29 de dezembro de 1992, assumir como o 33º presidente do Brasil.

    O ex-governador Geraldo Alckmin (PSB), candidato a vice-presidente, em ato de campanha em Taboão da Serra (SP) - Ricardo Stuckert - Ricardo Stuckert

    O ex-governador Geraldo Alckmin (PSB), candidato a vice-presidente, em ato de campanha

    Imagem: Ricardo Stuckert

    Por um copiloto confiável

    A importância da definição dos vices nas chapas presidenciais ficou patente logo no início da campanha de 2022. “Traição não está nem na índole, nem no caráter de Alckmin”, teria dito o ex-presidente e candidato ao cargo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em fevereiro, num jantar em São Paulo para tranquilizar seus correligionários.

    Tucano histórico, Geraldo Alckmin oficializou em março seu ingresso no PSB para que pudesse, assim, estampar ao lado de Lula os “folders” como candidato à vice-presidência. Antes, foi preciso aparar, tanto na executiva do partido quanto junto ao eleitorado, as arestas entre PT e PSDB.

    O ápice foi no segundo turno das eleições de 2006, quando Lula e Alckmin pleiteavam o cargo de presidente. Numa troca de insultos, o petista foi chamado de “ladrão de carro”, enquanto o tucano foi responsabilizado por deixar “São Paulo refém do crime organizado”.

    “Muita gente estranha minha aliança com Alckmin”, postou Lula no Twitter em 20 de julho. “Eu li em um livro do Paulo Freire que a gente tem que juntar os divergentes para derrotar os antagônicos. E é isso que vocês precisam saber. Nós vamos consertar esse país.”

    No dia seguinte, o PT divulgou a primeira peça publicitária da campanha: uma receita de lula com chuchu (devido ao tom quase insípido, o colunista José Simão, da Folha de S.Paulo, apelidou Alckmin de “picolé de chuchu”).

    O objetivo era ajudar a eleição de Fernando Haddad como governador de São Paulo, trazer estabilidade financeira para a indústria e abrir diálogo com empresários do agronegócio. O jeito educado e o trabalho do ex-governador paulista durante as viagens pelo interior foram conquistando os apoiadores do partido. “Já fui vice-governador do Mário Covas, em São Paulo. Vice é copiloto, a tarefa é ajudar”, Alckmin resumiu na coletiva de imprensa realizada na Santa Casa de Belo Horizonte, em 13 de setembro.

    “Ele é grato. Foi escanteado pelo partido que ajudou a fundar, estava como comentarista num programa de TV [“Todo Seu”, da TV Gazeta]. Lula e Haddad tiraram ele do ostracismo político e o devolveram para o jogo de poder, espaço e prestígio”, comenta outra fonte próxima do ex-presidente.

    O escanteamento diz a respeito aos atritos que Alckmin teve com seu ex-apadrinhado político, o ex-governador João Doria. O ex-padrinho amargou 4,8% das intenções de voto e se posicionou em quarto lugar na eleição que elegeria Bolsonaro (na época no PSL), com o apoio explícito de Doria.

    Meses atrás, Lula chegou a falar num jantar com empresários do ramo de construção que a escolha “é menos eleitoral que política”, e que Alckmin até pode ser um vice melhor que José Alencar (morto em 2011). “Ele não irá me ajudar a ganhar eleição. Ele vai me ajudar a governar”, garantiu, na ocasião.

    25.10.2021 | O vice-presidente Hamilton Mourão e o presidente Jair Bolsonaro, durante evento no Palácio do Planalto, em Brasília - Mateus Bonomi/Agif - Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo - Mateus Bonomi/Agif - Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo

    25.10.2021 | O vice-presidente Hamilton Mourão e o presidente Jair Bolsonaro, durante evento no Planalto

    Imagem: Mateus Bonomi/Agif – Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo

    Um general para chamar de seu

    “Bolsonaro é um homem íntegro e um excelente líder, mas tem uma mania de perseguição muito grande. Não confia em ninguém, vê conspiração em tudo, está sempre ressabiado. Era natural que fosse querer ao seu lado uma pessoa de extrema confiança”, destaca um de seus ministros mais próximos. Foi nesse cenário que o nome de Walter Souza Braga Netto (PL), 65, se sobressaiu, levando a cabo o art. 31 do Estatuto dos Militares: “Lealdade em todas as circunstâncias”.

    Outros nomes politicamente mais saborosos foram cotados para vice, como o de Tereza Cristina (PP), ex-ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento que, além de acenar para empresários do agronegócio, poderia puxar votos femininos. Também foi descartado o nome do atual vice-presidente, o general da reserva Hamilton Mourão (Republicanos), com quem o presidente passou praticamente todo o mandato em clima de tensão. Mourão criticou na GloboNews a falta de campanhas de conscientização na pandemia e até elogiou a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de suspender o pagamento das emendas parlamentares controladas pelo relator-geral do Orçamento. O contra-ataque de Bolsonaro foi, numa entrevista, compará-lo a um cunhado que “atrapalha” mas “tem que aturar”.

    “Apesar de tudo, Bolsonaro é grato. Ele sabe que se Mourão quisesse, ele poderia sofrer um impeachment”, diz uma fonte próxima à campanha presidencial. “Ele até está ajudando o Mourão na campanha [ao Senado, pelo Rio Grande do Sul.”

    Consciente de seu papel, GBN (como o General Braga Netto é chamado nos grupos de WhatsApp e Telegram bolsonaristas) respeita a hierarquia — no caso, a política, não a de patente militar. “Não vou falar muito, porque vocês vieram aqui mais para ouvir o presidente do que eu. Vice tem que ficar quieto e não atrapalhar”, limitou-se a dizer o ex-ministro da Defesa e da Casa Civil do governo, em agosto, num comício em Juiz de Fora (MG).

    “O vice é aquela pessoa que está ao seu lado nos momentos difíceis”, explicou Bolsonaro durante evento no Rio de Janeiro, em julho. “Não pode ser aquela pessoa que conspira contra você. O vice é a solução do problema. E eu escolhi, sim, um general.”

    Avesso a entrevistas, Braga Netto sempre pede para que colegas e apoiadores não tirem fotos em encontros privados. Registros em redes sociais precisam ser apagados.

    7.9.2022 | Braga Netto, durante as comemorações do bicentenário da Independência, em Brasília - Ton Molina /Fotoarena/Folhapress - Ton Molina /Fotoarena/Folhapress

    7.9.2022 | Braga Netto, durante as comemorações do bicentenário da Independência

    Imagem: Ton Molina /Fotoarena/Folhapress

    Apesar do jeito sisudo, pessoas que convivem com o general afirmam que ele é “bastante tranquilo” no trato e nos costumes. Braga Netto gosta de frequentar restaurantes self-service, treinar judô (é faixa preta no esporte), frequentar missas e passear com seu buldogue francês Jack (ele tinha dois cachorros da mesma raça, Jack e Daniels, mas Daniels morreu durante a pandemia).

    Sua conta no Twitter só foi criada em 29 de agosto por pressão de Bolsonaro e de seus filhos Flávio e Carlos. “Agora estou oficialmente no Twitter. Sou Walter Souza Braga Netto, mineiro de Belo Horizonte, General do Exército, ex-Ministro da Defesa e da Casa Civil e candidato a Vice-Presidente ao lado do nosso Presidente Jair Bolsonaro”, disse em sua primeira publicação. E prosseguiu: “Estou pronto para auxiliar nosso Presidente a defender os interesses nacionais perante o mundo. Representei o Brasil como Observador Militar do Exército, no Timor Leste, e como Adido Militar na Polônia, nos EUA e no Canadá.”

    O vice deixou de fora a função de interventor no Rio de Janeiro na crise de segurança pública em 2018, período em que chefiou os comandos da PM, da Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros e da administração penitenciária do estado. “Falo como carioca: se não fosse por ele, a situação do Rio não teria melhorado”, afirma o senador Carlos Portinho (PL-RJ).

    A opinião está longe de ser consensual. Órgãos como Anistia Internacional, Human Rights Watch e Comissão Interamericana de Direitos Humanos, entre outros, se posicionaram contrários à sua gestão. Segundo o Observatório da Intervenção, as 711 operações realizadas nos dez meses de intervenção levaram a 1.375 mortes, decorrentes diretamente da ação policial.

    A ex-vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) era uma das maiores críticas da medida. “Os favelados e faveladas sabem muito bem o que é ter um tanque na sua porta. [São eles] que sabem para onde a ponta do fuzil vai ser apontada”, disse, em fevereiro de 2018, um mês antes de ser assassinada.

    Outra polêmica envolvendo GBN foi o recebimento, em 2020, de R$ 926 mil em um período de dois meses, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, com dados obtidos pelo Portal da Transparência. O valor excedia em muito seu salário bruto mensal de R$ 31 mil na reserva do Exército. Braga Netto até hoje não se pronunciou sobre o tema.

    Amigo de Bolsonaro (ambos foram alunos na Academia Militar das Agulhas Negras e se formaram com um ano de diferença, no fim dos anos 1970), o general foi o primeiro a deixar um presidente participar de uma reunião do Alto Comissariado do Exército. Ele também compartilha as opiniões do mandatário em relação à pauta conservadora.

    “Braga Netto gosta de desenhar planos e traçar estratégias”, diz um general da ativa. “Sempre costuma mostrar planilhas e apresentações em PowerPoint para ilustrar melhor seus pensamentos.” Ainda não está claro, porém, se GBN terá mesmo espaço num possível segundo mandato de Bolsonaro ou se permanecerá, como tantos outros vices, exilado no prédio anexo.

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