Há 40 anos, o Brasil votava pela democracia. Hoje… quanta diferença!
POLÍTICA

Há 40 anos, o Brasil votava pela democracia. Hoje… quanta diferença!


O Brasil sempre foi um país de contrastes, com muitas incoerências, e de datas que representam os dois lados de uma moeda.

O Brasil ficou 21 anos numa ditadura militar perversa, cruel, que perseguia todas as pessoas que eram contra o regime. Muitos foram torturados, tantos outros foram assassinados e uma grande maioria desapareceu.

Mas a luta pela redemocratização nunca parou e alguns pontos foram importantes para alcançarmos o objetivo de vivermos num país livre. Sem increpação, com saudação à liberdade de frase, com orgulho de ser brasílico e conquistando o recta ao voto, coisa que não tínhamos durante aqueles anos de chumbo.

Uma dessas datas foi 15 de novembro de 1982, dia em que tivemos as primeiras eleições diretas desde o golpe de 1964, e pudemos escolher nossos governadores, senadores e deputados estaduais e federais.

Era o primeiro ano da democracia corintiana, e nos entregamos de corpo e psique para ocupar o título paulista (que era o mais importante daquela estação) e também na luta pela democracia. Incentivamos o voto usando a camisa “Dia 15 vote”.

Bom, o contraste histórico entra em jogo exatamente no mesmo dia em que pudemos votar em 1982. Hoje, os golpistas estão nas portas dos quartéis pedindo uma mediação militar — ou seja, a volta de uma ditadura.

Mas tem um contraste pior, que é o da mudança na cabeça das pessoas nesse espaço de tempo.

Enquanto em 15 de novembro de 1982 fomos às ruas empolgados para votar e estrear a derrubada do regime militar, na mesma data, 40 anos depois, as pessoas estão nas ruas pedindo a volta da ditadura usando a camisa amarela da seleção brasileira.

Simples que existe uma diferença enorme de conceitos e valores daquela estação para hoje. Em 1982, a nossa conquista foi legítima; hoje, protestam por um tanto antidemocrático e ilegítimo, porque foram derrotados nas urnas e não aceitam.

Existem coincidências e contrastes também no futebol. O ano de 1982 também foi de Despensa. Tínhamos uma seleção que ficou para a história, porque é considerada umas das melhores de todos os tempos e pela qual o torcedor brasílico era totalmente enamorado. Já a seleção desse ano não despertou paixão alguma até agora.

Amávamos também a camisa amarela (canarinho), que pertencia a todo o povo brasílico que estava do lado da democracia. Vestíamos a nossa camisa com muita felicidade e paixão.

A Despensa daquele ano (porquê todas até a de 2018) foi realizada em julho, na Espanha, que era um país que tinha pretérito pela longa ditadura fascista (1939 a 1975) de Francisco Franco. A Despensa desse ano será no Qatar, uma ditadura, um país que não respeita os direitos humanos. A franqueza será no domingo (20): ou seja, a única Despensa até o momento que não será no meio do ano.

Há 40 anos também ficamos chocados e muito tristes com a perda de uma das maiores intérpretes da música mundial. Em 19 de janeiro de 1982 morria a maravilhosa Elis Regina, perda que entristeceu o país e mata a gente de saudade. E, na semana passada, perdemos a Gal Costa, também uma maravilhosa tradutor, cuja morte causou o mesmo impacto emocional.

A coincidência existe também na tristeza de perdermos dois compositores e cantores populares, cada um no seu estilo, mas de grande relevância para a cultura brasileira. Daqui a oito dias completam-se 40 anos da morte do espetacular Adoniran Barbosa, um artista pelo qual sou enamorado. Tanto que produzi, junto com a minha equipe, em janeiro de 2017, uma homenagem a ele, o espetáculo Adonirando, no Theatro Municipal de São Paulo.

E no mesmo dia da morte da Gal também se foi o maravilhoso Rolando Boldrin, um dos maiores responsáveis (junto com Inezita Barroso) pelo espaço oferecido na TV brasileira para a música caipira, a verdadeira tendência de viola de todo o Brasil.

40 anos se passaram e as nossas lutas, nossas tristezas, nossos amores e desencantos continuam os mesmos. Mas a nossa perceptibilidade e a nossa cultura, quanta diferença!

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