Redação do Enem reflete sobre a reconstrução do país pós-Bolsonaro
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Redação do Enem reflete sobre a reconstrução do país pós-Bolsonaro


O tema escolhido para a redação do Enem, neste domingo (13), foram os “desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil”. A proposta, na prática, é um invitação aos que estão terminando o ensino médio a refletirem sobre a reconstrução do Brasil a partir dos escombros do governo Bolsonaro.

Considerando que os últimos quatros anos foram de perseguição a indígenas, ribeirinhos, quilombolas, caiçaras, extrativistas, faxinalenses, quebradeiras de coco de babaçu, vazanteiros, veredeiros, pescadores tradicionais, entre tantos outros que viram a erosão das políticas voltadas à proteção de sua pundonor, a proposta é um fôlego.

Principalmente, levando em conta os esforços para o desmonte do Inep, instituto responsável pela prova, e do Ministério da Ensino, transformado em instrumento de guerra cultural e de depravação na forma de barras de ouro para pastores amigos do presidente.

Bolsonaro elegeu-se, em 2018, defendendo que não existe racismo no Brasil e que, portanto, eram descabidas as acusações sobre os ataques racistas que ele proferiu contra povos tradicionais. Isso foi música para os ouvidos de uma parcela da população que, hoje, pede golpe, canta para pneus e se prende em caminhões por terror de perder seus privilégios frente aos historicamente fodidos.

Em campanha, Jair prometeu não demarcar “um centímetro quadrilátero” de territórios indígenas e quilombolas. Daí, no controle do Poder Executivo, deu início a uma ofensiva que tem tudo para ser lembrada uma vez que as ações de consequências genocidas levadas a cabo na ditadura militar. Negou-lhes terras, forçou sua aculturação, dificultou chegada a mantimentos e medidas de proteção à covid-19, permitiu a exploração econômica de suas áreas, mesmo à revelia.

Desmontou instituições que atuavam no monitoramento e fiscalização dos direitos de povos e comunidades tradicionais, sequestrando Funai, Ibama, ICMBio, Incra e até a Procuradoria-Universal da República. Tudo isso trouxe morte, doenças, fome infantil.

Em 2019, ele foi representado no Tribunal Penal Internacional, em Haia, na Holanda, por incitação ao genocídio de indígenas. Quem levou o caso à galanteio foi a Percentagem Arns e o Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos (CADHu). E isso antes do que conscientemente deixou de fazer na pandemia par salvar vidas.

O presidente deixava evidente seu incômodo com os direitos das populações tradicionais desde que era deputado federalista. Em uma palestra na sede da Hebraica, no Rio de Janeiro, em 2017, Bolsonaro proferiu um ataque às comunidades quilombolas que se tornou vergonhosamente icônico. “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais ligeiro lá pesava sete arrobas [medida de peso de gado]. Não fazem zero. Eu acho que nem para procriador ele ser”, afirmou.

“Ele devia ir manducar um capim ali fora para manter as suas origens”, foi a resposta do logo deputado Jair Bolsonaro em seguida um indígena jogar chuva em sua direção, em maio de 2008, num bate-boca em uma audiência pública, na Câmara, para discutir a demarcação da terreno indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima.

Quatro anos antes, durante outra reunião sobre o mesmo tema, Jair havia dito: “O índio, sem falar a nossa língua, fedorento, é o mínimo que posso falar, na maioria das vezes, vem para cá, sem qualquer noção de ensino, fazer lobby”.

Criadores de mancheia e fazendeiros de soja que operam na ilegalidade, madeireiros, garimpeiros e grileiros de terreno sentiram-se empoderados pelos discursos de Bolsonaro. Aproveitaram-se do vestimenta de que a invasão aos territórios tradicionais tem sido informalmente tolerada, causando violência e assassinatos.

Não só: Bolsonaro foi além e, diante dos incêndios na Amazônia levados a cabo por agropecuaristas, grileiros e madeireiros, culpou os povos e comunidades tradicionais pelas queimadas em exposição nas Nações Unidas.

E diante das reclamações por motivo de invasões de garimpeiros a territórios indígenas ocorridas em seu governo, uma vez que aquelas contra a etnia Waiãpi, no Estado do Amapá, e os Yanomami, em Roraima, Bolsonaro tem dito que há um complô internacional para a transformação dessas áreas em países independentes a termo de que suas riquezas possam ser exploradas.

Os territórios indígenas (que são responsáveis pelas mais altas taxas de conservação ambiental do país) nunca realizaram um plebiscito ou montaram uma campanha de guerra contra Brasil, ao contrário do que faz o presidente diariamente. Pelo contrário, querem é mais atenção do governo federalista, querem se sentir efetivamente brasileiros através da conquista de sua cidadania, o que inclui o recta à sua terreno.

Povos e comunidades tradicionais nunca tiveram vida fácil no Brasil, é importante que se diga. Nos governos petistas, o desrespeito aos seus direitos pode ser simbolizado na construção da hidrelétrica de Belo Monte, que atropelou indígenas e ribeirinhos no Pará. Mas a crueldade do governo Bolsonaro só é comparável à ruína perpetrada pela ditadura militar.

Não à toa, Jair adorava convocar governantes estrangeiros para sobrevoar de Manaus a Boa Vista a termo de mostrar um exemplo de “preservação”. Ironicamente, esse trecho vivenciou a tentativa de genocídio do povo Waimiri-Atroari, quando as obras da BR-174 ajudaram a reduzir de 3 milénio indivíduos, nos anos 1970, para 332, em 1980.

Basicamente, o governo Bolsonaro dizia aos povos e comunidades tradicionais que eles deviam se integrar ao padrão de sociedade apresentado por ele, abrindo mão de seus direitos, ou seriam tratados uma vez que estorvo, ressuscitando o “ame-o ou deixe-o”. Um processo de desumanização, em que as pessoas são medidas em arrobas.

O primeiro grande repto a partir do ano que vem é frear o ímpeto genocida imposto pela atual gestão. O segundo, fazer valer a lei. Parece pouco, mas nisso reside um porvir inteiro.



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