Vamos fazer Palmares de novo? – 20/11/2022 – Guia Preto
ENTRETENIMENTO

Vamos fazer Palmares de novo? – 20/11/2022 – Guia Preto


Um lugar em que tapume de 30 milénio pessoas negras foram livres por mais de 100 anos, com sistema próprio de governo, no início do período da escravização no Brasil (entre 1580 e 1695). Palmares é mais do que um capítulo mítico da história, é um lugar que existe e pode ser visitado, o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, em Alagoas, a unicamente 90 quilômetros de Maceió. É importante ressaltar que todo mundo precisa saber. E se não faz secção da sua lista de desejos de viagem pode incutir na conta do racismo estrutural que não deixa esse lugar ser venerado e espargido uma vez que deveria, uma reprodução do período escravista em que as histórias e heróis negros eram sistematicamente apagados.

Quem vence as barreiras e chega ao sítio em que Zumbi viveu descobre outros personagens importantes na luta pela liberdade, uma vez que Acotirene, Aqualtune, Ganga Zumba e Dandara. Até por isso, Palmares é um tramontana para ser visitado com guia de turismo, que pode contextualizar e localizar cada temporada e roupa que por lá passaram. O meu foi o griô (contador de histórias) Helcias Pereira, que indico para todas as pessoas por ter sido um dos responsáveis pela reconstrução do parque, além de ser muito hospitaleiro.

As histórias não ficam unicamente no pretérito e podem ser sentidas. O quilombo é um lugar de muitas energias, ancestralidade e transforma quem visitante. “Toquei na árvore e senti meus ancestrais”, relata o produtor cultural e fotógrafo Heitor Salatiel. “É um marco da resistência negra. Lá era a terreno da liberdade e, por isso, é uma viagem muito poderosa. Quando visitei, senti uma vez que se meu corpo e células tivessem se organizando, se reconectando. É um pouco físico”, diz a relações públicas Luciana Paulino. Por mais que eu tente descrever em texto, imagens e depoimentos é o tipo de lugar que você só compreende estando.

Cada espaço traz energias fortes. Entre eles, a lagoa encantada, o iroko (árvore do tempo), a tributo dos povos indígenas. Para além de narrativas e sentimento de conexão com o pretérito, o parque é também sobre os silêncios, os barulhos da natureza e dos voduns. As famosas palmeiras que deram o nome ao quilombo continuam espalhadas pelo terreno. As cinzas do jornalista e militante do movimento preto Abdias do Promanação foram espalhadas no entorno de uma árvore baobá que ainda ganha forma. A experiência é complementada com um almoço no restaurante da chef Mãe Neide, que serve comida da diáspora africana carregada de afeto e axé, e fica muito próximo do parque.

A viagem de Maceió até lá é tranquila, a BR 104 é boa e o trajectória dura tapume de 2 horas. A imensidão que se vê a partir do Parque Memorial, onde ficava o quartel general dá a noção da grandeza do que foi. Finalmente, a Serra da Ventre possui tapume de 28 milénio quilômetros quadrados, que eram ocupados por vários quilombos.

É interessante porque o mocambo, uma vez que também era chamado, acaba com a morte de quem lá viveu em 6 de fevereiro de 1695. Zumbi só foi tomado e morto em 20 de novembro do mesmo ano, por isso nesta data é comemorado o Dia da Consciência Negra. Mas a história de Palmares não se resume a isso. Há um sentimento de que lutar vale a pena, enfim eles foram livres por longos anos, num período multíplice da história. Viajar até esse território dá pujança para guerrilhar contra os racistas de hoje que ainda não entenderam a magnitude e potência do povo preto. Outrossim, cada pessoa negra carrega essa legado, essa ancestralidade e tem a missão de mantê-la viva. “Se Palmares não vive mais faremos Palmares de novo”, é uma frase do poeta José Carlos Limeira que virou grito do movimento preto uma vez que um chamado para se aquilombar, resistir e que eu replico cá uma vez que uma convocação: “Vamos fazer Palmares de novo?”.


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