Vitória de Lula livra progressistas de serem estraga sarau – 09/11/2022 – Fernanda Torres
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Vitória de Lula livra progressistas de serem estraga sarau – 09/11/2022 – Fernanda Torres



Uma dez de desmonte, areia movediça sem um pau onde se apanhar. O segundo vez torniquete, com taras de bebês banguelas e menores vadias imaginárias. Granadas, pistolas, tiros e o quase golpe. Xandão xerife contra a PRF tranca rua e Zema serpente ônibus, para impedir os pobres de oposição de votarem.

Surto coletivo.

Perdoe, leitor, o breve resumo de uma página viradela, mas escrevo depois da suada vitória, ainda sob efeito do choque. Na vivenda onde assisti à final da Despensa, os amigos prepararam uma mini-Copacabana de fogos de artifício, estourada numa zona sul enlutada. É impressionante a quantidade de gente muito nutrida capaz de escadeirar continência para as barbáries do capitão, em nome do soldado raso Guedes.

No dia seguinte, até o ar amanheceu mais ligeiro. Bozo fez a fina de vanescer, mas a angústia resistia. Era porquê se, em qualquer universo paralelo, o sofrimento continuasse igual.

Foi a mememania que me acalmou o fígado. Por dias, troquei mensagens sem parar. Flagras vexaminosos do efeito do vírus da Cambridge Analytica em bolsonaristas não vacinados. Um tropa de furiosos a parar caminhão com a unha, clamando por uma diretriz clara dos zeros. Exorcismo de comunistas e casos ainda mais graves, com saudações nazistas, no Sul, e o hino pátrio cantado em coro para um pneu. Um pneu.

Símbolo de cu e progresso.

Gozo indescritível, o de rir. Sim, porque foram quatro anos de cuspe na faceta, com o lado de cá nas cordas, sentenciado a denunciar, a se revoltar, a sentenciar. O mimimi da urbanidade pentelha, diante do terror às gargalhadas. Eles monopolizaram o humor com mau paladar, encurralando progressistas para o papel de estraga sarau. Foi gravíssimo.

“Era porquê o sujeito que interrompe a suruba, para lembrar os perigos das DST”, resumiu Antonio Prata, porquê só ele pode.

Os de mais de 80 refaziam cálculos, certos de não possuírem tempo útil de vida para verem a luz no término do túnel outra vez. Os de meia-idade, porquê eu, temiam chegarem idosos a 2026 para, na melhor das hipóteses, depositarem seu voto impresso na urna. De todas as idades que atravessaram a temporada de trevas, destaco a dos que entraram na juvenilidade em 2013 e alcançaram a maioridade no ano que se encerra.

Falo dos que me cercam, alvos da Brasil Paralelo e da Jovem Pan. Moços finos, que deixaram a puerícia no impeachment de Dilma e nunca viram a política ser exercida com sobriedade e reverência. Pegos pela pandemia, eles cumpriram dois anos de ensino superior remoto, afastados do campus, e costumam formar opinião na timeline que os congrega.

Os do curso de gestão —vertente técnica do de economia— exibem lacunas preocupantes em história, sociologia, filosofia, arte e recta. Pragmáticos, são formados em estatísticas, projeções e planilhas, identificando, no estouro do teto de gastos do famigerado PT, a face do bicho papão.

“É… Rumo à Venezuela!”, lamentou o jovem M. posteriormente o pleito, indiferente ao suporte da velha guarda de Armínio Penhasco, André Lara Resende, Pérsio Arida, Malan e Meirelles ao presidente eleito. Nas costas do moleque, a TV ligada nos baderneiros golpistas, na leniência da PRF, no silêncio do perdedor. Debaixo do seu nariz, os ataques ao TSE e ao STF, a CPI da Covid, o desregro na instrução, o mercado das bíblias, o Philishave de Ricardo Salles. A “venezuelização” em curso, e o imberbe M. lobotomizado pelo quadrângulo que o compete.

C. é camarada de M. desde o maternal. Recém-graduado em filosofia, C. leu Platão e Hannah Arendt na faculdade e acompanhou as aulas de Déborah Danowski sobre negacionismo. C. sente na pele os cortes das bolsas de pesquisa e sustento da ateneu.

Cada um é livre para votar em quem muito entender, mas essa eleição superou a questão do pensão íntimo. O liberalismo meritocrático de M., com vista grossa para os riscos da subida da extrema direita tupiniquim, é um tiro no peito de C. No dele e no de muita gente. A discordância não abalou a amizade, mas criou um retiro. Pela primeira vez, por razões sociais, culturais, políticas e econômicas, os dois se viram em trincheiras opostas.

A frente ampla, costurada por Lula, acena com trégua e diálogo. M. e C. precisam. E mesmo a eleição de Tarcísio para o governo de São Paulo é bem-vinda, se indicar para uma direita menos torta e perversa, que sirva de sossega-leão para os órfãos do fanatismo.

Eu estaria soltando rojo, não fosse a notícia de que o desencarnado tem planos de se candidatar para a prefeitura do Rio de Janeiro. Mando notícias da Fita de Gaza.


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